Futilidades de Natal
Na época de saldos as pessoas vagueiam apáticas.
Na época do Natal as pessoas pululam nos grandes Centros: ninguém os chama de Centro Comercial. Essa época decadente de meia duzia de lojas num edifício é simplesmente fora de moda. O nome correcto é shopping, isso mesmo, esse anglicismo europeu importado. A expressão "vou ao shopping" tornou-se num lugar comum, diria mesmo vulgar. Vulgar escrito com letras gordas. O Natal faz esquecer a lufa-lufa citadina do dia-a-dia, para celebrar o stress traumático de quem anseia por mostrar o que tem, e o que não tem, oferecendo. Recebendo a crédito. Como dizia Jesus Cristo: é no dar que se recebe. Neste caso é um pouco ao contrário: recebe-se o subsídio e dá-se. Dá-se o colapso. Dá-se a histeria do povo pelo consumo. Mal se compraram preços no mesmo produto em diferentes lojas; comparam-se, isso sim, o preço da prenda recebida, em euros, com a que devemos dar. A publicidade sobre os produtos é avassaladora. Nos panfletos que inundam as caixas de correio, os cartazes à beira da estrada, nos anúncios agressivos dos média. É natural assumir que todos conhecem, na vizinhança de uma dezena de euros, o preço das prendas recebidas.
E lá está o ensinamento cristão, aplicado no seu melhor...
Na época do Natal todos esquecem os problemas do emprego, as contas da água e da luz para pagar. Para isto ou para aquilo há sempre um empréstimozinho à mão, com 0% de juros. Sem asteriscos assustadores em rodapé.
Na época do Natal as luzes iluminam as estradas das maiores cidades, as próprias Juntas de Freguesias gabam-se do trabalho feito, não importa o custo adicional em electricidade ou no que fazer às toneladas de lâmpadas acesas. É sinal de progresso e de alegria. E todos estão alegremente atarefados... a comprar e a gastar. Não importa o quanto. O povo português gosta de pensar em grande, e gastar em barda.
Aquele povo tímido que vivia ofuscado por uma ditadura musculada acordou da letargia do 25 de Abril, e ergueu-se para a magnificência do seu glorioso passado. O povo humilde que defrontou uma guerra devastadora ([nas colónias]) esqueceu a idade das trevas e acordou para o altruismo. As luzes de Natal, esta época, faz-nos alienar da realidade da nossa pobreza (a fraca produtividade), das nossas limitações (o endividamento das famílias, em geral), da fragilidade da economia.
Não quero ser um Velho do Restelo, apenas quero encarar toda esta fobia com a devida tranquilidade e distanciamento. Mas pelo que observo, talvez me engane rotundamente. É que toda esta agitação em volta de futilidades tem um aspecto extremamente positivo: a procura interna, provocada por este forte consumismo, até excita de certa forma a economia -- traduzindo-se por um acréscimo significativo nas vendas a retalho.
Numa altura que se espera que a economia europeia possa definitivamente arrancar, é de saudar este optimismo eufórico -- puxa pelo cerne de uma economia fortemente dependente do aumento das exportações e do exterior -- o optimismo. Sem optimismo generalizado não há investimento, e esta folia natalícia reaviva de forma subtil o optimismo que é fulcral para nos retirar do abismo.
Acho relevante referir os aspectos positivos da futilidade do Natal: mesmo que sem essa futilidade, o Natal seja sempre... o que foi. Mais um dia feriado.

